Na Golegã em 1974, havia cerca de meia dúzia de poldros que sobressaíam aos olhos dos entendidos. Eram todos descendentes do Firme da Coudelaria Andrade e de éguas Veiga. Entre eles encontrava-se o Nilo, Neptuno, Novilheiro e no ano seguinte o Opus, toda uma geração de enorme importância para a criação da raça Lusitana. Opus, irmão pleno do Novilheiro, foi para Espanha tornando-se famoso toureando mais de 500 touros com Dom Álvaro Domecq Romero, sempre com um estilo assombroso. Neptuno, seguiu o mesmo caminho da fama, montado por Manuel Vidrie, foi considerado o melhor cavalo de toureio do seu tempo. Nilo, foi comprado pela Coudelaria Nacional e os seus filhos toureiam com Pablo Hermoso de Mendonza.

Novilheiro, foi adquirido nesse ano por um jovem cavaleiro, Jean Philippe Giacomini, que na altura fazia a sua aprendizagem em Portugal. Recordo-me de o ver montar nas manhãs de nevoeiro, típicas de Inverno, no Jockey Club de Lisboa, onde começava a desbastar o Novilheiro que já nessa época era um poldro impressionante. Com 1,65 cm de altura, ruço rodado de crina prateada, os seus olhos tinham uma expressão generosa, impressionava pelos andamentos soltos. A paixão do seu proprietário era bem conhecida. Graças a ele este garanhão tornou-se o mais célebre Lusitano no mundo do desporto equestre. Porém, Novilheiro viria a desenvolver duas grandes sobrecanas, uma em cada perna, causando preocupação a Jean Philippe Giacomini que confiou o cavalo aos cuidados de um experimentado jockey, George Du Bosk, para ser tratado. O resultado do tratamento foi trágico, devido à negligência de um tratador com o Novilheiro lesionado e inoperativo por muito tempo. A recuperação total demorou vários anos com cuidados permanentes, só ficando completa após uma cirurgia bem sucedida em França.

Depois disto ficou apto para voltar a trabalhar, sendo então treinado por Jean Philippe Giacomini que o conseguiu levar até ao nível de Grande Prémio em dressage. Entretanto Giacomini levou o Novilheiro para Inglaterra, onde era treinador de dressage de vários cavaleiros de Concurso Completo de Equitação que integravam a equipa inglesa. Rachel Bayliss, membro da equipa inglesa, tinha lições de dressage no Novilheiro e pediu para experimentar o cavalo nas provas de cross. O resultado foi de tal modo espectacular que foi admitido nas provas de “Three Day Event”. Na sua primeira tentativa ele surpreendeu todos com um esplêndido desempenho, terminando em primeiro lugar. Novilheiro voltou a vencer provs deste tipo antes de mudar novamente de carreira. O cavaleiro olímpico, John Whitaker, convenceu Jean Philippe a experimentar o cavalo nas provas de saltos de obstáculos. Os resultados surgiram à velocidade de um relâmpago. Em metade de uma época, Novilheiro veio das classes de principiantes até ao nível “open”. No ano seguinte, fazia parte da equipa de obstáculos inglesa que competia na Europa, E.U.A. e Canadá. Em 1983, Novilheiro tornou-se campeão britânico pelo valor dos prémios ganhos. Recentemente numa conversa telefónica, John Whitaker proferiu a seguinte afirmação: “Novilheiro era o meu cavalo mais rápido enquanto Ryan`s Son era o meu principal cavalo de Grande Prémio (competindo com sucesso nos Jogos Olímpicos de 76, 80 e 84).

Os dois cavalos tinham muito em comum, cuidadosos, entusiastas e uma forte e carismática personalidade. “Nono” era o nome pelo qual o tratava, tornou-se o cavalo mais veloz do circuito Europeu em menos de duas épocas e era inacreditável nas provas do tipo “escolha o seu percurso”. Ele era o cavalo favorito da minha esposa, Clare, que diariamente o treinava em Yorkshire Moors. Ele enfeitava-se todo e adorava estar presente na cerimónia de entrega de prémios, enquanto pôde alcançar lugares de pódium – em qualquer final que ele estivesse. Costumava fazer uma saudação que era aplaudida pelos espectadores. Tentei aprender a passage com o meu amigo Jean Philippe, mas nunca conseguimos encontrar o tempo certo para uma apresentação dignificante. A descendência que o Novilheiro produziu com éguas puro sangue deu excelentes resultados. Clare, eu próprio e a nossa tratadora, Sally, ficamos muito tristes quando o Novilheiro nos deixou, mas ficamos contentes por saber que ele é realmente admirado em Portugal onde iria ter uma importante carreira como reprodutor”.

Quinze anos depois as recordações de Jean Philippe Giacomini sobre o Novilheiro: “Ele pertencia a um pequeno grupo de grandes cavalos que tive a sorte de montar. Cavalos deste nível, para além de notáveis atributos físicos, com noção deles próprios e do lugar que ocupam no coração das pessoas. Tive a duvidosa sorte de o iniciar na dressage nos primórdios da minha carreira, por vezes a tarefa de preparar e treinar perante esta forte personalidade tornava-se intimidatória! Contudo, ele era um cavalo honesto e leal que consentia as minhas ordens correctas, opondo-se aos meus eros sem nunca perder a nobreza. Foi o responsável por eu ter descoberto que o equilíbrio e elegância dos Lusitanos praticamente não tem limites. Em 1992, montei novamente o Novilheiro na lezíria dos cavalos, tinha na altura 21 anos, com uma grande mescla de emoções: as reminiscências do passado encantaram-me o orgulho de ter contribuído para a sua grandeza e a tristeza pelas coisas que acabam depressa. Ele mantinha as mesmas qualidades desde a última vez que o montara há cerca de dez anos. Espero tê-lo honrado pelo menos metade do que ele me honrou a mim”. Quando, em 1987, tivemos conhecimento das negociações para levar o Novilheiro para a Alemanha no intuito de beneficiar éguas Oldenburger, contactamos de imediato Jean Philippe que se encontrava nos E.U.A. Depois de breves negociações entre ele e John Whitaker, estabelecemos um acordo e conseguimos que o Novilheiro voltasse a Portugal. Veio acompanhado de uma extensa carta de recomendações escrita pela esposa de John Whitaker, dizendo o que ele devia ou não comer, o que poderia ou não fazer – uma carta cordial, testemunho do enorme afecto e ligação ao cavalo.

Comecei a montá-lo no Jockey Club de Lisboa e constatei o seu grau de ensino, bem como o seu carácter generoso que me proporcionou um nível de prazer inesperado e que nunca havia sentido anteriormente. O grande cavaleiro, D. José Athayde, que dirigiu a Coudelaria de Alter Real e toureou com o Firme, pai do Novilheiro, afirmou com humor, “se alguém te tivesse visto montar o Novilheiro nestes dias iria a pensar que finalmente aprendestes a montar a sério”. Estive em Santo Huberto na caça à raposa montando o Novilheiro antes de iniciar a sua actividade de garanhão. Na abertura da caçada, partimos pela manhã com os cães e um numeroso grupo de cavaleiros. Subitamente começou a arquear o pescoço e resfolegava para os outros cavalos, demonstrando uma atitude violenta que me intimidou. Mas o susto foi de curta duração porque depois do primeiro galope passou a prestar atenção ao que estava a fazer ignorando os outros cavalos. Galopava atrás dos cães tentando seguir a pista!” Que sensação fantástica, galopar pelo campo, saltar obstáculos naturais com o sentimento de que ele não iria falhar!

O Novilheiro sempre encarou o desafio dos obstáculos pequenos como se fossem enormes, mostrando confiança e energia inultrapassável. Montei diversos cavalos, mas nenhum como ele. Na sua primeira caçada, o Novilheiro estava na frente feliz e tranquilo. Na Primavera seguinte, depois de o ter usado numa das éguas, colocámo-lo no campo no meio de quarenta éguas. O cavalo relinchava e com o vento nas ventas deixou que as éguas se aproximassem com curiosidade. Depois, como se já conhecesse tudo começou a galopar tranquilamente em volta delas, tomando posse do território e demonstrando a sua liderança. As éguas depressa se sentiram atraídas e ele retribuiu amavelmente. Passou vários anos na herdade e teve trinta bonitas filhas, que têm sido beneficiadas pelo Lidador, filho do Novilheiro. No próximo ano, elas serão beneficiadas pelo Narcótico, filho do Opus, irmão pleno do Novilheiro. Seguindo esta linha, procuramos seleccionar e perpetuar as qualidades ímpares do Novilheiro e do seu irmão na criação do Lusitano, dando origem a uma nova geração de garanhões de eleição. Os seus filhos foram campeões em diversas provas e recentemente na Golegã, quatro dos cinco poldros nos primeiros lugares eram filhos do Novilheiro. O Novilheiro passou os últimos anos a beneficiar éguas dos criadores Manuel Jorge d`Oliveira e Manuel Braga, usando também como garanhão o seu filho Inca, medalha de ouro na Golegã, pai do campeão dos campeões em Lisboa 99 e da campeã fêmea da expoégua/Golegã 99. O enorme legado deixado pelo Novilheiro estará sempre presente na criação do Lusitano através dos seus descendentes. Mais do que apenas um nome repetido no pedigree dos grandes cavalos, o Novilheiro demonstrou que esta raça ancestral pode competir com sucesso com as raças modernas. Juntamente com o seu irmão e meios-irmãos, tornou-se um padrão para o melhoramento da raça.
                                                                                              por Arsénio R. Cordeiro