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Novilheiro, foi adquirido
nesse ano por um jovem cavaleiro, Jean Philippe Giacomini, que
na altura fazia a sua aprendizagem em Portugal. Recordo-me de
o ver montar nas manhãs de nevoeiro, típicas de
Inverno, no Jockey Club de Lisboa, onde começava a desbastar
o Novilheiro que já nessa época era um poldro impressionante.
Com 1,65 cm de altura, ruço rodado de crina prateada, os
seus olhos tinham uma expressão generosa, impressionava
pelos andamentos soltos. A paixão do seu proprietário
era bem conhecida. Graças a ele este garanhão tornou-se
o mais célebre Lusitano no mundo do desporto equestre.
Porém, Novilheiro viria a desenvolver duas grandes sobrecanas,
uma em cada perna, causando preocupação a Jean Philippe
Giacomini que confiou o cavalo aos cuidados de um experimentado
jockey, George Du Bosk, para ser tratado. O resultado do tratamento
foi trágico, devido à negligência de um tratador
com o Novilheiro lesionado e inoperativo por muito tempo. A recuperação
total demorou vários anos com cuidados permanentes, só
ficando completa após uma cirurgia bem sucedida em França.
Depois disto ficou apto para voltar a trabalhar, sendo então
treinado por Jean Philippe Giacomini que o conseguiu levar até
ao nível de Grande Prémio em dressage. Entretanto
Giacomini levou o Novilheiro para Inglaterra, onde era treinador
de dressage de vários cavaleiros de Concurso Completo de
Equitação que integravam a equipa inglesa. Rachel
Bayliss, membro da equipa inglesa, tinha lições
de dressage no Novilheiro e pediu para experimentar o cavalo nas
provas de cross. O resultado foi de tal modo espectacular que
foi admitido nas provas de “Three Day Event”. Na sua
primeira tentativa ele surpreendeu todos com um esplêndido
desempenho, terminando em primeiro lugar. Novilheiro voltou a
vencer provs deste tipo antes de mudar novamente de carreira.
O cavaleiro olímpico, John Whitaker, convenceu Jean Philippe
a experimentar o cavalo nas provas de saltos de obstáculos.
Os resultados surgiram à velocidade de um relâmpago.
Em metade de uma época, Novilheiro veio das classes de
principiantes até ao nível “open”. No
ano seguinte, fazia parte da equipa de obstáculos inglesa
que competia na Europa, E.U.A. e Canadá. Em 1983, Novilheiro
tornou-se campeão britânico pelo valor dos prémios
ganhos. Recentemente numa conversa telefónica, John Whitaker
proferiu a seguinte afirmação: “Novilheiro
era o meu cavalo mais rápido enquanto Ryan`s Son era o
meu principal cavalo de Grande Prémio (competindo com sucesso
nos Jogos Olímpicos de 76, 80 e 84).
Os dois cavalos tinham muito em comum, cuidadosos, entusiastas
e uma forte e carismática personalidade. “Nono”
era o nome pelo qual o tratava, tornou-se o cavalo mais veloz
do circuito Europeu em menos de duas épocas e era inacreditável
nas provas do tipo “escolha o seu percurso”. Ele era
o cavalo favorito da minha esposa, Clare, que diariamente o treinava
em Yorkshire Moors. Ele enfeitava-se todo e adorava estar presente
na cerimónia de entrega de prémios, enquanto pôde
alcançar lugares de pódium – em qualquer final
que ele estivesse. Costumava fazer uma saudação
que era aplaudida pelos espectadores. Tentei aprender a passage
com o meu amigo Jean Philippe, mas nunca conseguimos encontrar
o tempo certo para uma apresentação dignificante.
A descendência que o Novilheiro produziu com éguas
puro sangue deu excelentes resultados. Clare, eu próprio
e a nossa tratadora, Sally, ficamos muito tristes quando o Novilheiro
nos deixou, mas ficamos contentes por saber que ele é realmente
admirado em Portugal onde iria ter uma importante carreira como
reprodutor”.
Quinze anos depois as recordações de Jean Philippe
Giacomini sobre o Novilheiro: “Ele pertencia a um pequeno
grupo de grandes cavalos que tive a sorte de montar. Cavalos deste
nível, para além de notáveis atributos físicos,
com noção deles próprios e do lugar que ocupam
no coração das pessoas. Tive a duvidosa sorte de
o iniciar na dressage nos primórdios da minha carreira,
por vezes a tarefa de preparar e treinar perante esta forte personalidade
tornava-se intimidatória! Contudo, ele era um cavalo honesto
e leal que consentia as minhas ordens correctas, opondo-se aos
meus eros sem nunca perder a nobreza. Foi o responsável
por eu ter descoberto que o equilíbrio e elegância
dos Lusitanos praticamente não tem limites. Em 1992, montei
novamente o Novilheiro na lezíria dos cavalos, tinha na
altura 21 anos, com uma grande mescla de emoções:
as reminiscências do passado encantaram-me o orgulho de
ter contribuído para a sua grandeza e a tristeza pelas
coisas que acabam depressa. Ele mantinha as mesmas qualidades
desde a última vez que o montara há cerca de dez
anos. Espero tê-lo honrado pelo menos metade do que ele
me honrou a mim”. Quando, em 1987, tivemos conhecimento
das negociações para levar o Novilheiro para a Alemanha
no intuito de beneficiar éguas Oldenburger, contactamos
de imediato Jean Philippe que se encontrava nos E.U.A. Depois
de breves negociações entre ele e John Whitaker,
estabelecemos um acordo e conseguimos que o Novilheiro voltasse
a Portugal. Veio acompanhado de uma extensa carta de recomendações
escrita pela esposa de John Whitaker, dizendo o que ele devia
ou não comer, o que poderia ou não fazer –
uma carta cordial, testemunho do enorme afecto e ligação
ao cavalo.
Comecei a montá-lo no Jockey Club de Lisboa e constatei
o seu grau de ensino, bem como o seu carácter generoso
que me proporcionou um nível de prazer inesperado e que
nunca havia sentido anteriormente. O grande cavaleiro, D. José
Athayde, que dirigiu a Coudelaria de Alter Real e toureou com
o Firme, pai do Novilheiro, afirmou com humor, “se alguém
te tivesse visto montar o Novilheiro nestes dias iria a pensar
que finalmente aprendestes a montar a sério”. Estive
em Santo Huberto na caça à raposa montando o Novilheiro
antes de iniciar a sua actividade de garanhão. Na abertura
da caçada, partimos pela manhã com os cães
e um numeroso grupo de cavaleiros. Subitamente começou
a arquear o pescoço e resfolegava para os outros cavalos,
demonstrando uma atitude violenta que me intimidou. Mas o susto
foi de curta duração porque depois do primeiro galope
passou a prestar atenção ao que estava a fazer ignorando
os outros cavalos. Galopava atrás dos cães tentando
seguir a pista!” Que sensação fantástica,
galopar pelo campo, saltar obstáculos naturais com o sentimento
de que ele não iria falhar!
O Novilheiro sempre encarou o desafio dos obstáculos pequenos
como se fossem enormes, mostrando confiança e energia inultrapassável.
Montei diversos cavalos, mas nenhum como ele. Na sua primeira
caçada, o Novilheiro estava na frente feliz e tranquilo.
Na Primavera seguinte, depois de o ter usado numa das éguas,
colocámo-lo no campo no meio de quarenta éguas.
O cavalo relinchava e com o vento nas ventas deixou que as éguas
se aproximassem com curiosidade. Depois, como se já conhecesse
tudo começou a galopar tranquilamente em volta delas, tomando
posse do território e demonstrando a sua liderança.
As éguas depressa se sentiram atraídas e ele retribuiu
amavelmente. Passou vários anos na herdade e teve trinta
bonitas filhas, que têm sido beneficiadas pelo Lidador,
filho do Novilheiro. No próximo ano, elas serão
beneficiadas pelo Narcótico, filho do Opus, irmão
pleno do Novilheiro. Seguindo esta linha, procuramos seleccionar
e perpetuar as qualidades ímpares do Novilheiro e do seu
irmão na criação do Lusitano, dando origem
a uma nova geração de garanhões de eleição.
Os seus filhos foram campeões em diversas provas e recentemente
na Golegã, quatro dos cinco poldros nos primeiros lugares
eram filhos do Novilheiro. O Novilheiro passou os últimos
anos a beneficiar éguas dos criadores Manuel Jorge d`Oliveira
e Manuel Braga, usando também como garanhão o seu
filho Inca, medalha de ouro na Golegã, pai do campeão
dos campeões em Lisboa 99 e da campeã fêmea
da expoégua/Golegã 99. O enorme legado deixado pelo
Novilheiro estará sempre presente na criação
do Lusitano através dos seus descendentes. Mais do que
apenas um nome repetido no pedigree dos grandes cavalos, o Novilheiro
demonstrou que esta raça ancestral pode competir com sucesso
com as raças modernas. Juntamente com o seu irmão
e meios-irmãos, tornou-se um padrão para o melhoramento
da raça.
por Arsénio R. Cordeiro |
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