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GENÉTICAS
DAS PELAGENS LUSITANAS
É muito comum ouvirmos falar que um cavalo colorido, filho
de tordilhos, tem uma maior possibilidade de produzir tordilhos.
Nada mais errado.
Ler a biografia de Hitler não nos faz entusiastas do nazismo,
assim como não se é budista apenas por lermos a história
de Sidarta. Porém, o mais leigo estudar sobre genética
de pelagens eqüinas transforma-nos, frente a todos, em radicais
promotores da criação de cavalos orientada pela cor.
Na verdade, as coisas não funcionam bem assim. Seria importante
lembrar que, ao interessarmo-nos e escrevermos sobre o assunto,
não estamos defendendo que a criação de nossos
cavalos seja pautada pela seleção de cores ainda que
o mercado, mergulhado numa febril (e passageira) coqueluche, chame
para isso. Também não criticamos aqueles que assim
selecionam seus produtos e, a esses, procuraremos oferecer aqui
um embasamento elementar.
De toda controvérsia, suposições e mitos acerca
das pelagens eqüinas, parece que o único consenso aceita
em uníssono por todos, é que a cor de um cavalo é
herdada de seus pais. Esse será, pois, nosso ponto de partida.
Porém, como o universo do assunto é grande e os espaços
de pauta, pequeno, não irão longe: de toda a enorme
gama de variedades nas pelagens dos cavalos, falaremos apenas do
que faz ou não um cavalo ser tordilho.
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| Nessa intenção didática,
reduziremos as pelagens em dois grupos: de um lado, os tordilhos e,
de outro, todos os outros tipos de pelagens castanhas, pretas, baias,
enfim, coloridas, como as chamaremos. Então, sempre que mencionarmos
qualquer informação genética sobre um animal,
entenda-se, estaremos falando apenas dos genes responsáveis
pela pelagem tordilha ou colorida. Todos os outros causadores das
variações de cor entre os coloridos serão, agora,
ignorados. As informações que determinam um caráter
hereditário são transmitidas metade pelo pai, metade
pela mãe. Essas informações, ou genes interagem
entre si numa relação de recessividade ou dominante.
Por exemplo, pensemos num animal tordilho: ele portara duas informações
genéticas que determinam sua pelagem; uma é recebida
do pai; outra, da mãe. Usaremos a letra “G” ou
“g” para referirmos nos ao gen responsável pela
cor tordilha desse cavalo. Esses genes interagem da seguinte forma: |
• "G" determina pelagem
tordilha
• "g" determina pelagem colorida
G é dominante para g ou g é recessivo para G
Isso quer dizer que se o animal receber da mãe o gen G e
do pai g; o dominante (G) determinará a cor do animal: tordilho.
Para um animal ser colorido (não tordilho) ele jamais poderá
portar o gen G. Ele, necessariamente, receberia, tanto do pai como
da mãe, o gen g. Sua genética, então, poderia
ser representada por gg. f\baixo, um exemplo de como um casal de
tordilhos pode gerar produtos coloridos. Os filhos 1, 2 e 3 seriam
tordilhos, pois portariam G e o indivíduo 4 seria colorido.
Nesse exemplo, os pais eram heterozigotos para o gen de tordilhamento.
Isso significa que, apesar de serem tordilhos, portavam o gen que
determina a pelagem colorida.
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| Assim se explica como dois tordilhos podem
ter um filho colorido. Mas nem sempre isso é possível.
Imaginemos que um dos pais fosse homozigoto para o gen de tordilhamento
ou seja, portasse GG; jamais ele poderia ter um filho colorido, pois
sempre enviaria a seus produtos o gen G, que por si só já
determina a pelagem tordilha, não importando qual seja o outro
gen. É muito comum ouvirmos falar que um colorido, por ser
filho de tordilhos, tem uma maior possibilidade de ter filhos tordilhos.
Nada mais errado. Ele teria sempre a seguinte genética. "Animal
colorido do exemplo acima tem, em relação ao gen de
tordilhamento, a mesma genética que qualquer outro animal colorido."
Esse produto jamais poderia enviar a informação de pelagem
tordilha (G) pelo simples fato de não possuir esse gen. Repetindo,
um cavalo preto filho de dois tordilhos não porta o gen G,
pois, se portasse, não seria preto, seria tordilho. E, se ele
não possui esse gen, seria impossível transmiti-lo ao
filho. |
Outro ledo e comum engano percebe sempre em propagandas de garanhões
de pelagens exóticas. Nesses anúncios, é comum
constar que o reprodutor em questão gera uma determinada
porcentagem de filhos coloridos com éguas tordilhas. Ora,
a propaganda é das éguas, pois TODO cavalo colorido
possui a genética gg, só podendo / / enviar o gen
g. Nunca um animal colorido poderia gerar mais produtos coloridos
que outro da mesma pelagem. Mas um animal tordilho pode produzir
mais filhos coloridos do que outro tordilho, como mostram os exemplos
abaixo:
50% dos produtos seriam coloridos em virtude da égua ser
portadora de g. Essa é a porcentagem máxima que um
cavalo colorido pode ter de filhos coloridos com uma égua
tordilha.
E sempre bom lembrarmos que tratamos de possibilidades. Quando
falamos em certa porcentagem de algum resultado, indicamos a chance
matemática dessa incidência. E comum ouvirmos criadores
se gabarem de animais tordilhos que só produziram coloridos.
Obra do acaso. Seria como atirarmos uma moeda ao alto algumas vezes
e só cair coroa. As chances continuam as mesmas: 50% de possibilidade
de dar cara. Com a égua do exemplo acima, qualquer cavalo
colorido só teria produtos tordilhos. Se os pais forem coloridos,
cem por cento dos filhos também o serão. Entendido
isso, nas próximas edições comentaremos sobre
as diferenças entre as diversas pelagens coloridas. |
A PELAGEM
DO CAVALO
A pelagem do cavalo é importante para a sua
identificação. A sua grande variedade e tipos leva muitas
vezes a grandes confusões e erros. Seria fastidioso dar grandes
esclarecimentos de ordem genética para a sua explicação.
Há pouco tempo numa reunião em que participava fomos
confrontados com um trabalho da Sra. Prof. Dra. Maria do Mar Oom da
Faculdade de Ciências de Lisboa em que abordou de uma maneira
simples e clara alguns aspectos deste problema. Assim e porque achava
útil fornecer este conhecimento às pessoas ligadas ao
cavalo vamos com concordância da autora transcrever essas notas
(por Maria do Mar Oom). Um sistema de classificação
adequado e uniforme para as pelagens de eqüinos e respectivas
marcas é extremamente importante em qualquer programa de identificação
individual. Para que seja possível aplicar-se uma terminologia
correcta a todas as classes de pelagens, dar ênfase às
características básicas e bem definidas e minimizar
a importância de subtilezas que não podem ser claramente
definidas.
REGRAS GERAIS
Genética e regras gerais na determinação de
algumas pelagens. Um esquema da classificação de pelagens
pode ser baseado no reconhecimento dos efeitos fenotípicos
dos alelos de diversos genes e, com algum treino, poderá
uniformemente ser aplicado por qualquer pessoa de modo a definir-se
a maioria das pelagens mais comuns em cavalos.
GENE W
Traduz-se na incapacidade de desenvolver qualquer pigmento na pele
e nos pêlos. Este gene e o que se segue o gene (i), são
apresentados em primeiro lugar pois possuem alelos dominantes que
ocultam qualquer manifestação de outros genes de pelagens
(epistáticos sobre todos os outros). É, pois, difícil
ou praticamente impossível detectar os outros genes de pelagens
num animal que possua o alelo W, extremamente raro. |
Tabela 1 |
Gene |
Alelos |
Genotipo Y Fenotipo |
W |
W
w |
WW- letal (provoca abortos
precoces) Ww- cavalo
branco, tipicamente sem pigmento na pele e nos pêlos desde
a nascença. A pele é rosa, os olhos azuis ou castanhos,
e os pêlos completamente brancos. ww-
todos os cavalos não brancos, de pigmentação
disseminada por todo o corpo. |
| Nota:
-Branco x qq pelagem Y 50% brancos
-Branco x branco Y 50% brancos, 25% qq pelagem; 25% inviáveis |
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É de chamar a atenção para:
1. Num cavalo branco não é possível detectar
qualquer malha, quer na cabeça quer nos membros, uma das
formas de os distinguir dos cavalos isabéis (cremes), com
os quais são frequentemente confundidos.
2. É facilmente observável a pele rosa à volta
do focinho, narinas, olhos e interior das orelhas. Por vezes estes
cavalos, tal como os cavalos isabéis são erradamente
designados por albinos, que não existem e teriam forçosamente
de apresentar olhos vermelhos.
GENE G
Traduz-se na exclusão progressiva do pigmento dos pêlos
com o avanço da idade do animal. Trata-se de um fenómeno
semelhante ao que nos humanos, à medida que a idade avança:
os cabelos originalmente de diferentes colorações
- loiros, castanhos, pretos, ruivos, etc,- vão-se tornando
progressivamente brancos, já que o pigmento é impedido
de migrar ao longo dos pêlos. Os cavalos que apresentam esta
pelagem designam-se por ruços, sendo controlada pelo alelo
dominante G, que se exprime sobre qualquer pelagem. |
Tabela 2 |
Gene |
Alelos |
Genotipo Y Fenotipo |
G |
G
g |
GG- cavalo ruço, mostrando
um progressivo embranquecimento do pêlo com a idade até
tornar-se completamente branco, apesar de apresentar qualquer
outra pelagem à nascença (deve ser igualmente
registada para além da denominação geral
de ruço Ex. ruço sobre lazão). A pele apresenta-se
sempre pigmentada, seja qual for o avanço do embranquecimento.
Gg- igual a GG (cavalo ruço).
gg- cavalos não ruços,
ou seja, que não evidenciam qualquer tipo de embranquecimento
dos pêlos com a idade. |
| Nota:
Não é possível saber se um cavalo ruço
é homozigótico (GG) ou heterozigótico
(Gg). Qualquer cavalo ruço te obrigatoriamente de possuir
um progenitor ruço.
-Ruço x qq pelagem Y 50% ruço
-Ruço x ruço Y quase todas as pelagens são
possíveis. |
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É pois difícil fixar a pelagem ruça numa raça,
sendo muito fácil irradicá-la.
É de chamar a atenção para:
1. As indicações mais precoces do embranquecimento
de uma pelagem aparentemente fixa à nascença podem
ser observados
2. Em estados intermédios do processo de embranquecimento
do cavalo apresentará uma mistura de pêlos brancos
e escuros, e que pode dificultar bastante a tentativa de identificação
da pelagem.
3. Um cavalo ruço apresentará sempre, por mais que
seja a pele muito escura, devido à acumulação
de pigmento na pele, pelo facto deste não migrar ao longo
dos pêlos. Tais características tornam-se particularmente
evidentes se olharmos para a extremidade do ficinho, narinas e à
volta dos olhos (contrariamente ao que sucede nos cavalos brancos
e isabeis, de pele rosa.
4. Esta combinação excessiva de pigmento provoca a
ocorrência de melanomas (tumores benignos).
GENE E
Determina a síntese e disposição de pigmento
preto (eumelanina) nos pêlos. O primeiro passo na definição
da pelagem de um equino que não seja branco ou ruço
será averiguar se possui pêlos pretos, quer surjam
apenas em determinadas regiões do corpo (extremidades dos
membros, crina e cauda), quer se trate do único tipo de pêlos
existentes, igualmente distribuído por todo o corpo do animal
(à excepção das malhas). A existência
de pêlos pretos denuncia que o animal possui e alelo dominante
E.
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Tabela 3 |
Gene |
Alelos |
Genotipo Y Fenotipo |
E |
E
e |
EE- cavalo com possibilidade
de formar pigmento preto na pele e no pêlo. Tais pêlos
podem apenas localizar-se em determinadas regiões do
corpo, ou estar total e uniformemente distribuídos
por todo o corpo (cavalos castanhos e ou pretos)
Ee- igual a EE.
ee- cavalos alazões,
com pigmento preto na pele, mas pêlos apenas com pigmento
vermelho, de tonalidades diversas. As crinas e a cauda podem
ser da mesma cor que os restantes pêlos, mais escuras
ou mais claras, mas nunca pretas. |
| Nota:
-Lazão x lazão Y 100% lazão. |
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É de chamar a atenção para:
1. As malhas na cadeça e nos membros são particularmente
frequêntes em cavalos lazões
GENE A
Determina o padrão de distribuição dos pelos
pretos do corpo de animal. A alelo A combinado com o alelo E do
gene confinará a existência de pêlos pretos à
extremidade dos membros, crina e cauda, produzindo um cavlo castanho,
nas mais diversas tonalidades (do vermelho quase alaranjado ao castanho
pezenho). O alelo alternativo, a, raro na maioria das raças
nã se restringe a ocorrência de pêlos pretos
a determinadas regiões, pelo que em combinação
com alelo, produzirá cavalos pretos. Nenhum dos alelos deste
gene (A e a) afecta pigmento e sua distribuição em
cavalos lazões, pelo que não é possível
determinar qual deles está presente num cavalo com esta pelagem. |
Tabela 4 |
Gene |
Alelos |
Genotipo Y Fenotipo |
A |
A
a |
AA- se o cavalo possuir pêlos
pretos (E), estes localizam-se apenas em determonadas regiões
do corpo (cavalo castanho). A não têm efeito sobre
pigmento castanho(CE). Aa- igual
a AA. aa- se o cavalo
possuir pêlos pretos (E), estes estarão total e
uniformemente distribuídos por todo o corpo (cavalo preto).a
não tem qualquer efeito sobre o pigmento castanho (ee). |
| Nota:
-Preto x preto Y preto (maioria), lazão, palomino e
isabel. |
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É de chamar a tenção para:
1. Os cavalos verdadeiramente pretos são raros, sendo frequentemente
confundidos com castanhos pezenhos. Para distinguir basta olhar
atentamente para a extremidade do focinho, bragadas e entre as nádegas,
onde a pigmentação mais clara, ou seja, de tons vermelhos-castanhos.
2. Por vezes a crina e a cauda dos cavalos são ligeiramente
mais claras que os pêlos do corpo. Da mesma forma o tom negro
do corpo pode apresentar-se ligeiramente mais claro do que o da
extremidades dos membros.
3. Em alguns cavalos castanhos a coloração negra das
extremidades dos membros não é muito extensa, pelo
que será necessário olhar para a cor pêlos existentes
junto aos cascos.
GENE C
Determina a diluição do pigmento. Um alelo deste gene
Ccr controla a diluição do pigmento vermelho (faeomelenina)
quando em heterozigotia, tendo pouco ou nenhum efeito sobre o pigmento
preto (eumelaina). Assim, um cavalo castanho torna-se baio pela
diluição do pigmento vermelho do corpo, sem afectar
a pigmentação preta da crina, cauda e extremidades
dos membros, e um cavalo lazão torna-se palomino pela diluição
do pigmento vermelho c do corpo em amarelo, sendo a crina e a cauda
ainda mais diluídas por um tom praticamente branco. |
Tabela 5 |
Gene |
Alelos |
Genotipo Y Fenotipo |
C |
C
C(cr) |
CC- cavalo completamente pigmentado
(cavalos de pelagem não diluída). Cc(cr)-
pigmento vermelho diluído para amarelo.
C(cr)C(cr)- ambos os pigmentos
são diluídos para creme (cavalo isabel). A pele
e os olhos também se encontram diluídos. |
| Nota:
Não é possível saber que alelos de outros
genes estão presentes num cavalo C(cr)C(cr). Os cavalos
isabeis são tipicamente o produto de dois cavalos de
pelagem diluída (palomionos ou baios).
-Isabel x isabel Y 100% isabel
-Isabel x palomino Y 50% palomino; 50% isabel
-Palomino x isabel Y 100% palomino
-Palomino x palomino Y 25% lazão, 50% palomino; 25%
isabel
-Palomino x lazão Y 50% lazão; 50% palomino. |
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Em homozigotia, o alelo Ccr provoca diluição de ambos
os tipos de pigmentos, ou seja, qualquer tipo de pelagem é
diluída para creme muito pálido (cavalos isabeis).
É de chamar a atenção para:
1. Os cavalos isabeis são frequentemente confundidos com os
brancos. No entanto, os pêlos dos primeiros são tipicamente
de tonalidade creme, enquanto os pêlos dos segundos se apresentam
brancos. Além disso é possível distinguir manchas
(na cabeça e nos membros) nos cavalos isabeis , o que acontece
nos cavalos brancos.
2. Os cavalos palominos são frequentemente confundidos com
cavalos lazõe se baios de crina lavada (que apresentam crinas
interpoladas nas restantes, mas nunca totalmente brancas como a dos
palominos). |
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