 |
 |
O Cavalo Lusitano nos séculos XIX e XX igualmente ao
que ocorreu na Espanha, nesses séculos o rebanho de Portugal
também sofreu a infusão de sangues estrangeiros:
de tiro, hackney, normando, árabe e puro sangue inglês,diretamente,
ou através das importações de cavalos da
Espanha.
|
 |
A LINHAGEM ALTER REAL
A Coudelaria Alter foi fundada em 1751 com aquisição
de éguas e garanhões andaluzes selecionando cavalos
de pelagem castanha, de muita classe e uniformidade que a fizeram
famosa internacionalmente. Porém, seguindo os modismos,
atendendo à demanda das forças armadas, a influências
devido a invasão francesa e lutas internas, a
partir
de 1840 foram colocados garanhões de tiro-ingleses, franceses
e alemães durante cerca de 15 anos e depois reprodutores
árabes por mais de 20 anos.
A partir de 1875, Felipe da Silva nomeado administrador da Coudelaria
voltou a utilizar garanhões |
 |
|
de Alter e espanhóis, após verificar os desastrosos
resultados das cruzas anteriores.
Após 1910 reiniciou-se a utilização de garanhões
árabes, até 1942 quando a Coudelaria passou do Ministério
do Exército para o da Agricultura, com a recuperação
da raça através da criação consangüínea,
tentando-se a fixação dos genes desejáveis e
o expurgo dos indesejáveis, que só foi possível
com a introdução de garanhões de criadores particulares
com muito sangue Alter.
Essa consangüinidade apertada fez aparecer diversas taras, defeitos
de conformação e de funcionalidade decidindo então
se utilizar garanhões da Coudelaria Nacional.
A experiência não deu os resultados esperados e a partir
de 1968 o Dr. Guilherme Borba, então diretor da Coudelaria
fez somente cruzamentos entre reprodutores Alter, sem parentes comuns
até a 3a geração. Essa experiência foi
relativamente bem sucedida, as taras diminuíram e os defeitos
físicos e funcionais atenuaram-se, porém restava muito
a fazer. Decidiu então colocar o garanhão VIDAGO da
Coudelaria Andrade cujo resultado também não foi satisfatório
para atingir-se o “cavalo perdido”. Recentemente uma comissão
comprou um cavalo espanhol castanho pata melhorar a criação
de Alter, porém por motivos políticos a transação
não foi efetuada. |

|
UMA LINHAGEM EM
ASCENSÃO
A história da Coudelaria de Alter
do Chão.
“...ânimo e pujança de um nobre alfario,
um tanto folião sem ser arisco” - assim é
o bom alter’, descreve o hipólogo português
silvestre lima, sobre o cavalo originário da coudelaria
de alter, definindo alfario como palavra lusitana para ‘cavalo
comunicativo, brincalhão, rinchador — alegre,
amigo disposto”.
De
fato, assim são os produtos desta coudelaria criada
por ordem régia de 9 de dezembro de 1748 por Dom
João V, enviada à Câmara de Alter do
Chão, mandando
|
|
“retirar
da Coutada do Arneiro os gados do povo para as éguas da raça
de Salvaterra lá poderem pastar’, com a finalidade de
sustentar a Cavalaria Real. Seleção - “A instalação
e formação da Coudelaria de Alter principia virtualmente
no final de 1748, de fato em 1749 com a construção do
muro circundante da propriedade para guardar as pastagens e, praticamente
em 1751 (já sob o reinado de Dom José I) com a entrada
das primeiras éguas para ela importadas da Espanha”,
descreve Ruy d’Andrade em “Elementos para a História
da Coudelaria de Alter”. Já em 1760, no entanto, os cavalos
da Coudelaria Real de Alter do Chão eram famosos em toda a
Europa, principalmente, para os exercícios de Alta Escola.
Na Picaria Real, no Palácio de Belém, onde se exibiam,
não tinham rivais à altura e, por quase um século,
foram afamados serviçais da realeza e nobreza européias.
Tanta pompa e virtude somente foram possíveis graças
ao rigor da criação e seleção. Formado
basicamente pela raça espanhola Andaluza — foram quarenta
as éguas de origem Zapata, importadas da Espanha, que deram
início à Coudelaria — o cavalo Alter foi criado
em condições ideais. O próprio local já
fora escolhido a dedo, um verdadeiro celeiro de bons cavalos, como
pôde ser comprovado por Gregório Züniga e Arista,
em 1705: ”...que los potros que se criam en la ArneIa de Alter
do Chao, salen mui buenos cavallos”. Soltas em piquetes subdivididos,
com tropas específicas para cada função, as éguas
eram cobertas somente a cada dois anos, para que os potros, que amamentavam
até completar um ano de idade tivessem o melhor desenvolvimento
possível. Por mais de uma década de instalação
da Coudelaria, os cruzamentos entre os animais eram feitos com outros
de pura raça Andaluz, mantendo-se uma discreta consangüinidade
e “formando uma verdadeira raça de enorme valor genético,
extremamente fechada, a tal ponto que se tornou difícil seu
cruzamento com quaisquer das outras linhagens de Puro Sangue Lusitano,
sendo por isso pouco utilizada para fins reprodutivos fora da eguada
de Alter”, como definiu Paulo Gavião Gonzaga em “O
Cavalo Lusitano, Linhagens”.
Foi o produto deste minucioso processo de criação e
seleção que, inclusive, veio a dar origem a algumas
das principais raças de cavalos brasileiras no início
do século XIX. Em 1808, com a transferência da Corte
de Dom João VI para o Brasil — fugindo das tropas de
Napoleão — à Colônia foi elevada a Reino,
ao lado de Portugal. Na bagagem, além das armas e brasões,
a família real trouxe alguns de seus principais tesouros, entre
eles, exemplares da Coudelaria Real de Alter do Chão. Baseados,
principalmente, na Coudelaria Real de Cachoeira do Campo, próxima
a Ouro Preto, Minas Gerais — construída nos moldes da
própria Coudelaria de Alter - apadrinharam cruzamentos que,
posteriormente, deram origem às raças Mangalarga e Campolina.
Decadência — No entanto, enquanto no Brasil os cavalos
de Alter propiciavam novas raças e mantinham a fama de cavalos
reais, na Europa eles sofriam as agruras da decadência devido
à desorientação de sua seleção.
Muito embora Ruy d’Andrade, maior historiador da Coudelaria,
afirme que o “grupo eqüino d’Alter foi supra-sumo
da produção hípica do país — Portugal
— desde meados do século XVIII até o princípio
do século XX e teve, por meio dos seus garanhões, larga
influência sobre boa parte da produção cavalar
portuguesa”, as evidências históricas provam o
contrário. No início do século XIX, por exemplo,
a reputação da Coudelaria sofreu sérios danos
quando o naturalista francês Bufolt — muito respeitado
na época — divulgou sua indignação sobre
a consangüinidade nos processos de criação e seleção
de animais — processos então utilizados em Alter. Não
bastasse isso, as batalhas com os franceses e, depois, com os ingleses,
aliados à transferência da família real para o
Brasil, também desviaram as atenções portuguesas
preocupadas com outras prioridades. Segundo Paulo Gavião Gonzaga,
no livro “O Cavalo Lusitano, Linhagens”, (a partir de
1841) a Coudelaria passou a privilegiar os cavalos de tiro e, mais
tarde, permitiu a infusão de sangue árabe (1857 a 1877)
em suas tropas. “Em 1875, o novo administrador Filipe da Silva
salvou a Coudelaria, restabelecendo as condições iniciais,
com o emprego exclusivo de reprodutores de Alter e espanhóis
da mesma origem (Zapata), o que prosseguiu até 1900”,
descreve Gonzaga. No entanto, no início do século XX
a Coudelaria passou para as mãos do Ministério do Exército
que, mais uma vez, introduziu o sangue árabe. Após a
Segunda Guerra Mundial, restaram apenas onze éguas puras para
recuperar toda a linhagem. Em 1942, quando Alter passa para a administração
do Ministério da Agricultura português, o antigo processo
de seleção é retomado. “Foram então
eliminados os animais que fugiam ao padrão da raça e
introduzido o garanhão Marialva II, da Coudelaria Fontes Pereira
de Melo, que se dedicava, havia anos, à criação
da linhagem de Alter. Em 1969, uma epizootia dizimou o efetivo e,
para reconstitui-lo foi adquirida a eguada de Antonio Picão
Caldeira, que havia mais de 25 anos utilizava unicamente garanhões
de Alter”, conta Gonzaga, ilustrando a recuperação
da Coudelaria.
Ascensão — Atualmente, todo o plantel descende de três
garanhões principais — Regedor, nascido em 1923, Marialva
II, de 1930, e Vigilante, de 1927 — introduzidos, especificamente,
para resgatar a homogeneidade da tropa e a recuperação
das suas virtudes genéticas, morfológicas e funcionais.
Em 1979, a fundação da Escola Portuguesa de Arte Eqüestre
novamente elevou o nome de Alter em toda a Europa, principalmente,
por retomar a especialidade da raça para o adestramento sob
as diretrizes da Equitação de Alta Escola. Inclusive,
todo o plantel de Alter Real é direcionado, atualmente, para
o adestramento especializado, com investimentos na atrelagem; enquanto
a tropa pertencente à Coudelaria da Fonte Boa (Coudelaria Nacional)
— que desde 1990 divide o espaço físico da Coudelaria
— é polivalente, atendendo ao toureio, à atrelagem,
ao salto e ao lazer.
Retomando as suas verdadeiras atribuições de preservação
e melhoramento dos efetivos coudélicos nacionais, estudo e
divulgação das técnicas e dos sistemas de criação
cavalar, apreciação genética e funcional dos
reprodutores eqüinos, formação profissional de
técnicos, tratadores e ferradores, além de assistência
técnica especializada e promoção e divulgação
do cavalo Lusitano, a Coudelaria de Alter chega aos dias de hoje com
mais de duzentos animais, sendo um quarto deles matrizes, espalhados
por uma área de quinhentos hectares.
O serviço coudélico português está investindo
muito dinheiro. São quatro milhões de escudos em sua
recuperação estrutural e, atualmente, Alter já
possui um dos maiores laboratórios moleculares do mundo e o
único Banco de DNA da raça, além de um centro
de desbaste e um centro de testagem de éguas com o objetivo
de renovar o efetivo reprodutor feminino de éguas portuguesas.
Além de se esforçar para preservar outra raça
de eqüinos lusitanos, o Soraia, que se encontra em fase de extinção,
Alter também possui um centro permanente de desenvolvimento
de documentação da raça, museu do cavalo e Falconaria
— arte de adestrar e caçar com aves de presa —
e ainda ocupa o Museu dos Coches, em Lisboa, o mais antigo picadeiro
barroco do mundo. Parte integrante de um programa de desenvolvimento
e valorização do Alentejo, a Coudelaria de Alter, sem
dúvida, chega, com muita dedicação, aos 251 anos
com muitos planos para o futuro. |
A LINHAGEM DA COUDELARIA NACIONAL
A linhagem da Coudelaria Nacional foi formada quase que exclusivamente
por garanhões e éguas importadas da Espanha, de
linhagem Terry, sobre a base de éguas autóctones
e tipo tração existentes na Península Ibérica
mais a introdução de sangue Alter Real.
Após rigorosa seleção morfológica
e funcional dos garanhões a serem aprovados para reprodução,
os quais passavam por testes rigorosos de adestramento cross-country
de até 70 km e tração ligeira, bem como
plena orientação dos criadores e a cessão
dos garanhões do
|
 |
|
Estado para beneficiar as éguas de particulares, o rebanho
português atingiu grande uniformidade e excelente funcionalidade
como cavalo de sela e tração ligeira, porém em
sua maioria um pouco pesados para toureio.
Dessa mesma origem e seleção foram os cavalos das tradicionais
Coudelarias de Portugal: Infante da Câmara, Ervideira Manuel
Duarte Oliveira, Lima Monteiro, Van Zeller Palha, F. L. Vasconcelos,
Veiga Araújo, Barata Freixo e Oliveira e Souza, entre outras.
Os principais garanhões da linhagem Terry utilizados pela Coudelaria
Nacional foram:
PRIMOROSO (Terry), DESTINADO (Terry), ZARAGOZANO (Romero Benitez)
, JAMONERO (Terry), CARTUJANO (Antonio Perez Tinao), CELOSO (Terry),
NOVATO (Terry) e INNATO (Domecq). |
|
A LINHAGEM DA COUDELARIA
VEIGA
A Coudelaria Veiga foi iniciada no final do século
XIX pelo engenheiro Manuel Veiga, com éguas adquiridas
na região do Ribatejo em Portugal. Homem culto e grande
cavaleiro, selecionou sua criação seguindo seu
gosto pessoal, ouvindo apenas a opinião de seus amigos
toureiros, entre eles o célebre João Núncio,
que desejavam cavalos funcionais, aptos para o toureio eqüestre.
Seguindo a seleção funcional, retornou à
origem dos cavalos da Península Ibérica, encontrando
o bom e o belo, porte médio, pescoço elegante,
perfil subconvexo,
|
|
linha dorsal flexível, membros finos e acurvilhados, porém
com grande poder de impulsão, análogos aos cavalos guerreiros
de outrora.
O engenheiro Manuel Veiga não selecionou e nem apreciava o
perfil subconvexo, este, apareceu em conseqüência da seleção
fuincional. Dentre os principais garanhões utilizados, podemos
citar o garanhão espanhol “GEREZ” introduzido por
volta de 1920, linhagem dos antigos e bons cavalos Cartujanos melhorados
com o sangue berbere introduzido pelos mouros. Foi, no entanto após
a consangüinidade seguinte do garanhão AGARENO que se
fixou o perfil subconvexo, atualmente chamado “aveigado”.
LIDADOR, BERBER, SULTÂO e FURIA entre outros foram cavalos que
contribuíram na seleção da linhagem Veiga.
Posteriormente, para abrir a consangüinidade dos seus animais
foram introduzidos garanhões de sangue árabe, com resultados
negativos, e, há cerca de vinte anos atrás, com a introdução
do garanhão FIRME, da Coudelaria Andrade, linhagem Cartujana
do Príncipe VIII, nasceram os mais notáveis cavalos
de toureio dos últimos anos, NEPTUNO e OPUS e o cavalo de salto
e adestramento NOVILHEIRO, que chegou à equipe Olímpica
da Inglaterra.
A Coudelaria Veiga há 50 anos atrás cedeu éguas
aos criadores João Núncio, cujos descendentes mantém
sua criação até hoje, e os criadores Malta e
Trancas que há 20 anos venderam seu rebanho, dando origem às
Coudelarias Quinas, Alcobia e Cunha & Carmo, que também
foram extintas, ficando suas éguas distribuídas entre
vários criadores, entre os quais podemos destacar atualmente
as Coudelarias Coimbra e Pinto Barreiros que procuram selecionar por
absorção, a linhagem Veiga. Atualmente devido ao excesso
de consangüinidade o perfil convexo acentuou-se muito e a funcionalidade
foi prejudicada, tendo em vista nas últimas décadas
os cavalos Veiga “puros” que se destacaram no toureio. |
A LINHAGEM ANDRADE
Ruy D’Andrade, criador de grande visão e ginete
de alta escola, após dedicar-se inicialmente à
criação de cavalos Puro Sangue Inglês, e,
estudar exaustivamente o Cavalo Andaluz e a decadência
em que a criação dos mesmos se encontrava no início
deste século, conseqüência das guerras e introdução
de vários sangues estranhos, passou a criar e selecionar
o tradicional Cavalo Andaluz-Espanhol. Ao contrario de Manuel
Veiga, Ruy D’Andrade importou garanhões e éguas
da mais alta categoria de renomados criadores da Espanha.
Foi, no entanto a partir de 1974 na Revolução
dos Cravos que o rebanho lusitano sofreu muitíssimo com
as principais coudelarias desativadas grandes parte do rebanho
exportado para vários países, principalmente Espanha
e Brasil. Por vários anos, o livro do Stud Book permaneceu
aberto, sangues estranhos reaparecemram e cruzamentos das linhagens
puras da Coudelaria Nacional e Veiga foram incentivadas para
chegar-se a um cavalo moderno e de bom porte. Fernando D’Andrade,
renomado hipólogo analisando o estágio da criação
de cavalos PSL e PRE escreveu em 1977: A superioridade do cavalo
lusitano sobre o cavalo espanhol, como animal de sela é
incontestável em função da seleção
funcional a que foram submetidos os reprodutores em Portugal.
|
|
|