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Deslocamo-nos ao Alentejo, à localidade de Barbacena,
onde fica localizada a Herdade da Fontalva, propriedade do Eng.º
José Luís Sommer d´Andrade, criador de cavalos
Sorraia e neto do Dr. Ruy d´Andrade. O mesmo cientista
que foi responsável pela descoberta do último
grupo de Cavalos Ibéricos de tipo primitivo, em 1920,
nas margens do rio Sorraia.
O grupo foi nessa altura levado para a quinta da Agolada e posteriormente
transferido para Fontalva, onde ainda hoje se encontra.
O Sr. Eng. º José Luís d´Andrade é
presidente da
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Associação
Internacional de Criadores do Cavalo
Ibérico
de Tipo Primitivo e recebeu-nos em Fontalva para conversarmos sobre
o presente e o futuro desta raça.
Pergunta
(P): Quantos Cavalos Sorraia existem hoje em Portugal?
Resposta (R): Eu tenho 31 aqui em Fontalva e os meus irmãos
têm mais cerca de 25, nas suas Quintas. Na Coudelaria de Alter
e com os outros criadores existem cerca de 24. Por isso existem
cerca de 90 no total. Na Alemanha existirão 10. Por isso,
o total mundial pouco ultrapassará uma centena.
P: Logo, aqui se concentra o maior número...
R: Aqui na Fontalva devem concentrar-se cerca de 30% do efetivo
mundial de cavalos do Sorraia.
P: Com este número, corre-se o risco de a raça vir
a desaparecer?
R: Enquanto eu for vivo, não! Mas depois, não sei...
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| Eng.º
José Luis d'Andrade, Presidente da Associação
Internacional de Criadores de Sorraias. |
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P: Pode haver mais pessoas e instituições
como a nossa interessadas em fazer projeto para salvar a
raça da extinção...
R: Há algumas Escolas Agrárias como a de Santarém
e a de Coimbra que já têm núcleos de
Sorraias. Mas lá, é preciso ter cuidado. É
preciso que nessas Escolas se evite cair na tentação
de fazer cruzamentos com outras raças para estudar
os resultados. Se não se evitar isso, possivelmente
a raça correrá perigo por entrada de sangue
estranho..
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P: O que é que poderia ser feito para aumentar o número
de efetivos?
R: Aparecerem mais pessoas "carolas" para esse tipo de projeto.
P: E o Estado Português?
R: O Estado Português devia dar mais apoio e preocupar-se
mais com a conservação da raça. Há quadros
superiores do Estado que se preocupam, como no Serviço Nacional
Coudélico. Mas não há uma política do
Estado para proteger e desenvolver a raça.
P: Não há uma política definida pelo Estado?
R: Não, não há. O que existe é "carolice"
de alguns funcionários superiores.
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P: Mas tem havido colaboração
e trabalho da Faculdade de Ciências de Lisboa.
R: Tem. A Profª. Maria do Mar Oom tem feito um bom trabalho.
Como curiosidade refiro que num dos seus estudos sobre pelagem,
a Profª. Considera que os animais de pelagem cinzento-rato
cruzado entre si, nunca criam animais de pelagem baia. Neste
aspecto, pela experiência que tenho aqui, têm
nascido poldros baios, tendo os pais pelagem cinzento-rato.
A investigação científica deve continuar:
para o ADN, para a pelagem e noutras áreas.
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P: O que diz sobre cruzamentos, tem
a ver com a dominância das cores das pelagens?
R: É verdade. Não é como concluíram.
Para mim, há um factor que ainda é desconhecido. Ou
então, as conclusões da ciência não são
tão lineares.
P: O seu pai, o Sr. Fernando d´Andrade também o considerava?
R: O meu pai considerava que a pelagem cinzento-rato era mais característica
que a baia. Mas o meu avô Ruy d´Andrade achava que o
Sorraia baio era mais característico que o rato (cinzento-rato).
De fato, se repararmos na coloração dos animais primitivos,
nos quais incluo, por exemplo, a perdiz, o coelho e a raposa, vêem
que a coloração das penas e dos pelos tem muito de
baio para se confundir com a erva seca dos campos, que é
amarelo-palha. A cor baia é muito próxima da palha
e permite que o animal se proteja de inimigos naturais. É
uma camuflagem natural.
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Égua baia com cria de pelagem rato
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P: Então os Sorraias terão
desenvolvido mais a pelagem baia?
R: Dado o seu caráter primitivo, acredito que terão
desenvolvido mais a pelagem baia que o cinzento-rato. Repare
que numa pastagem seca, vê-se o rato, mas não
se vê o baio. Talvez por isso a predominância
seja baia. O que poderá explicar que um casal rato
possa dar origem a um poldro baio, como já aqui aconteceu.
Mas um casal baio nunca produziu poldros de pelagem cinzento-rato.
Por isso, estou convencido que o (cavalo) baio é
mais característico que (o cavalo) rato.
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P: Que outras razões têm?
R: Repare que os animais selvagens como o coelho ou a raposa desenvolve
riscas ou listas no pelo para melhor se camuflarem e que, como disse,
essas listas têm cor de palha. Ora, todos os Sorraias também
desenvolvem listas escuras nas pernas. Mas puxam mais para o baio
com listas do que para o rato com listas. Repare que nas listas
das zebras também ocorrem colorações de fundo
nas suas listas, de cor cinzento-amarelado. Os cavalos cinzentos,
ao pé das rochas que por aqui existem, não se vêem.
Mas se forem para junto da palha seca que aqui existe, já
se notam.
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P: Isso tem a ver com as regiões de
onde são originários?
R: O Cavalo Ibérico, ou do Sorraia, é proveniente
das planícies dos vales do Tejo, do Sado e do Guadalquivir.
É um cavalo do sudoeste da península Ibérica.
Ora, os animais que por aqui existem têm pelagem de
predominância amarelo-palha e não cinzento-rato...
P: A sua opinião é fundamentada na experiência?
R: É baseada na observação dos animais
que aqui existem, quer no Alentejo quer nos vales que referi.
São hipóteses possíveis. O meu avô
também referia isso. E |

Paisagem
Alentejana. As cores dos cavalos
são disfarces naturais. |
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considerava que o mesmo se aplicava
no Ribatejo.
Quero dizer-lhe que o meu avô (Ruy d´Andrade) me dizia
que os historiadores e arqueólogos andavam a pesquisar sobre
povos antigos peninsulares e não consideravam nas suas análises
a domesticação de cavalos. Ora, o meu avô considerava
que há vestígios que demonstram que os povos da península
já domesticavam o cavalo há pelo menos quatro mil
anos. Isso quer dizer que a civilização dos povos
Ibéricos é bastante evoluída e superior. Os
níveis de civilização também se avaliam
pelo fato de os povos terem capacidade para domesticar mamíferos
superiores.
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Cria de Sorraia
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P: Passa-se o mesmo com os cavalos
Lusitanos?
R: O meu avô reparou que as crias de Lusitanos, quando
nascem, têm pelagens cinzentas e baias. E têm
listas de zebra ou de gato, o que denuncia que os seus antepassados
deveriam ter essas características. Pelo estudo intensivo
e pela procura, veio a encontrar um grupo de animais primitivos
com essas características junto do rio Sorraia. Foi
por isso que ele decidiu trazer animais desses para a sua
quinta (quatro éguas e um cavalo para começar)
– para estudo e para conservação da
espécie. Já então o meu avô considerava
que os Sorraias eram muito valiosos para estudo.
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Foi assim que ele criou o núcleo
primitivo de Sorraias e desenvolveu o estudo pioneiro publicado
em 1945.
P: As hipóteses do Dr. Ruy d´Andrade têm sido
comprovadas
pela investigação?
R: As hipóteses do meu avô têm sido hoje em dia
comprovadas pela ciência. Está previsto estudar-se
agora o AND de fósseis de cavalos pré-históricos
que apareceram em Espanha, com o objetivo de testar a coerência
da teoria. Se hoje este cavalo representa pouco a nível econômico,
deve ter-se em conta que conta muito para a ciência e muitíssimo
para a história. Basta ver que foi com base no Sorraia que
se desenvolveram a maioria das raças de cavalos em todo o
continente Americano.
P: Está provada a teoria que estes animais são originários
da península?
R: Não há dúvidas científicas quanto
à antiguidade e primitividade destes animais. Também
não há dúvidas quanto à sua origem:
eles são cavalos autóctones do sudoeste da Península
Ibérica. Não têm qualquer ponto de contacto
com outras raças. O que hoje se coloca em causa é
a hipótese histórica de a equitação
ter sido uma criação dos povos Ibéricos, há
cerca de 4.000 anos e depois ter sido espalhada para a Europa, ou
de a equitação ter sido trazidos pelos povos europeus
invasores da península e depois aqui adaptada.
P: O Dr. Ruy d´Andrade tinha também uma hipótese
sobre esta matéria?
R: Ele insistia muito na idéia de que na Península
Ibérica teria existido uma civilização mais
antiga do que as outras civilizações conhecidas. E
baseava-se no fato de que aqui se terá domesticado o cavalo
muito antes dos outros povos o terem conseguido. Ele insistia que
uma civilização superior se avalia pela possibilidade
de os povos domarem mamíferos superiores como o cavalo, como
referi. Mas isso ainda está por provar.
Segundo considerava o meu avô, quando os mercadores fenícios
chegaram pela primeira vez à Península Ibérica,
já encontraram evidências que os povos Iberos praticavam
a equitação superior, isto é, com um sistema
avançado de arreios. Um dos primeiros sinais de uma civilização
antes do aparecimento da escrita, é a domesticação
dos animais superiores, como foi aqui o caso.
P: O seu avô ter-se-á baseado em estudos de documentos...
R: O meu avô investigou a partir de fontes escritas. Ele chegou
a aprender línguas antigas para o fazer.
P: Dando agora um salto para o presente – o que acha que
se deve fazer para salvar o Cavalo do Sorraia da extinção?
R: Nesse aspecto, a minha família tem feito um grande esforço
a todos os níveis. Pela nossa parte continuaremos a fazê-lo,
por tradição e por gosto. É caro manter animais
destes em cativeiro. E já o fazemos há cerca de 80
anos. Os Sorraias que existem no mundo foram gerados a partir dos
que para aqui vieram em 1927. Esse esforço deveria ser apoiado,
porque o que fazemos tem valor.
P: E para o futuro?
R: Há que interessar mais criadores em Portugal para fazer
como a Câmara de Alpiarça está a fazer com o
vosso projeto de Reserva Natural dedicada ao desenvolvimento do
Cavalo do Sorraia. Há que procurar apoios e canalizar auxílios
financeiros para podermos desenvolver o número de efetivos
da raça. Deve evitar-se o perigo causado pelos estrangeiros
que querem agora pôr em causa os resultados das investigações
científicas que temos desenvolvido na Faculdade de Ciências
de Lisboa.
P: Devemos defender o patrimônio genético do Sorraia...
R: Têm aparecido alguns detratores. Se este cavalo fosse do
País deles, estariam a defendê-lo. Assim, estão
agora a atacá-lo. Não sei ainda com certeza o que
querem atingir. Mas acredito que as razões dos detratores
sejam mais políticas do que científicas. E é
contra esses ataques que temos que nos defender, reforçando
a nossa organização, pesquisando mais e obtendo mais
apoios. É fundamental defender este grande patrimônio
genético e histórico que temos.
P: E quanto aos níveis de consangüinidade?
R: Temos que trabalhar para evitar os elevados níveis de
consangüinidade hoje existentes. É importante que as
Escolas Superiores, que já têm alguns Sorraias, cooperem
entre si e conosco para evitar experiências de cruzamentos
com raças exteriores à do Sorraia que podem pôr
em perigo o futuro da raça.
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P: E quanto às Instituições
que hoje investiram na criação de manadas de Sorraias?
R: É importante que a Câmara de Alpiarça
e as Escolas Superiores que já têm Sorraias, tomem
medidas para garantir que no futuro esses Sorraias não
sejam vendidos. Tomem atenção porque as eleições
autárquicas no futuro vão trazer outras pessoas
para as Autarquias. E não sei se os futuros autarcas
têm as mesmas idéias de conservação
do Sorraia. Se não se tomarem medidas, pode acontecer
que futuras Câmaras decidam vender os animais. O mesmo
se aplica às Escolas Superiores Agrárias.
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A
entrevista transcorreu com éguas
Lusitanas a assistir. Os Sorraias nunca se
aproximaram. |
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P: Que outros planos têm para o futuro?
R: Investigar na área da história e tentar testar
a hipótese do meu avô, ou seja, a de que na Ibéria
teria existido uma civilização superior, com um
povo que já domesticava cavalos. Se assim for, os Iberos
não terão sido os selvagens que os Romanos consideravam.
E os Portugueses, herdeiros da tradição dos Iberos,
terão mais razões de orgulho nas suas raízes
históricas milenares.
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