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O traje, o modo de vestir,
tem no homem civilizadas funções distintas. Protege
o do frio e do Calor, da agressão dos elementos, facilita
o exercício dos diversos misteres. Por estas razões
o traje é funcional e prático. Mas além destas
características, o modo de vestir serve para definir a posição
na hierarquia social, a educação, o poder de compra.
Enriquecido, o traje sacrifica parte de sua funcionalidade à
ostentação, ao luxo.
Ao estudar-se o traje de equitação, facilmente nos
apercebemos de que existia assim um modelo mais singelo e prático,
de tecidos grosseiros e de materiais resistentes, e um outro agaloado,
debruado de alamares de seda ou prata, com aplicações
de veludinho, e executado todo ele em tecidos finos e naturalmente
mais frágeis. Por este motivo, se designava este último
traje de rico ou de ver-a-Deus, pois se reservava para os momentos
solenes, de que a missa dominical não era um dos menos assinaláveis.
A tradição consagrou com traje de equitação,
nas nossas feiras e mercados, onde o cavalo é o principal
figurante, o modo de vestir dos nossos cavaleiros e amazonas do
final do século XIX, principio do século XX. Do século
XVIII ficou, com algumas alterações de pormenor, no
cavaleiro tauromáquico, o modo de vestir da corte de Portugal,
que, aliás, seguia o figurino da corte francesa de Luís
XV e de Luis XVI.
O modo de trajar que persistiu e a que fizemos referência
era genuinamente popular e talvez também por isso se manteve
até aos nossos dias.
Quando hoje se vêem gravuras ou se observam grupos folclóricos
de diversas nações, fácil se torna verificar
que existem, em todos os trajes, denominadores comuns. Para o homem,
casaco curto com ou sem colete, camisa branca, calça comprida
(que se generalizou após a Revolução Francesa);
para a mulher, corpete, casaquinho curto, saia comprida de roda.
Mas como também sem dificuldade se confirma, os trajes são
suficientemente diferentes para destrinçar a origem dos vários
grupos.
O nosso traje de equitação, usado na zona centro do
país, obedece àqueles denominadores comuns, mas distingue-se
por pormenores que lhe conferem individualidade própria.
Antes de, sucintamente, descrevermos o nosso traje de equitação,
parece-nos importante lembrar que as nossas recordações
de infância e os documentos fotográficos do final do
século passado, que tiveram como pioneiro Carlos Relvas,
são processos de investigação pouco seguros.
O contacto facilitado com a Europa no final do século, a
preocupação de mostrar o acesso à moda dos
meios mundanos internacionais afirmando, pelo trajar, superioridade
econômica e cultural, fez com que as características
populares do traje se alterassem com modelos vindos de fora. As
fotografias porque habitualmente retratavam pessoas de posição
elevada, são assim um mau repertório de informação
e poderiam conduzir a conclusões grosseiramente falsas, como
por exemplo, considerar o chapéu alto, o coco, o boné,
as calças de fantasia, o casaco de “tweed”, como
própria de nossa tradição.
O homem do Ribatejo e do norte do Alentejo vestia-se de surrobeco,
baetão ou cotim, conforme a época do ano e guardava
a velvetina, o veludo, a pelúcia para os trajes domingueiros.
De tons variados no dia-a-dia do castanho ao cinza, passando pelo
alvadio, liso ou riscado, como num tipo particular de tecido designado
por Diagonal de Matos, era invariavelmente escuro, ou mesmo negro,
nos momentos solenes.
A sobriedade de tons usados no traje rico alegrava-se com as aplicações
discretas das sobregolas, dos “cantos” da jaqueta, do
cotoveleiras, com as abotoaduras negras de fio de seda com os alamares
de prata recordação de avós, heranças
orgulhosamente ostentadas como símbolos perenes da antiguidade
da família.
Vejamos então, com algum pormenor, as várias peças
do traje.
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O CHAPÉU, em
meados do século, tinha virola de dois a quatro centímetros,
aba larga (tão larga quanto a altura da copa), de copa convexa,
to tipo meia laranja. Mais tarde, vulgarizou-se a aba sem virola
e a copa passou a usar-se “metida para dentro”, sendo
este o chapéu que alguns confundiram com o Mazzantini. O
Mazzantini tinha a copa em tronco de cilindro, cortada à
faca, e todo o chapéu era rígido, de aba debruada
a fita de gorgorão e enfeitado de três pequenos botões,
fixados em diagonal, na fita que envolvia a copa. O nosso chapéu
era menos rígido, de aba não debruada, de copa fácil
de amolgar quando se segurava pelo polegar e indicador da mão.
A fita que lhe cercava a copa não tinha botões, mas
um simples laço. Este chapéu e o de virola e copa
convexa, são os que consideramos como genuinamente nossos.
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A JAQUETA era um casaco
curto, um pouco acima da linha da cintura, cortado a direito nas costas
e não em arco como nas jaquetas espanholas. Á frente,
a jaqueta podia apresentar-se sem gola, com a gola de tira, de romeira,
de dois bicos ou de virados, de rebuço, de jaquetão.
Fechando a jaqueta, usavam-se botões de osso, chifre, madeira,
vidro, metal, do tipo pé de flor, forrados freqüentemente
do tecido da jaqueta. Nos modelos mais ricos cosiam-se abotoaduras
ou botões de prata ou, copiando as fardas militares de gala,
alamares ou abotoaduras de cordão de seda.
A utilização da jaqueta fazia com que os cantos e os
cotovelos se esgarçassem com freqüência. Por isso
esses pontos eram reforçados com tecido. O que era no princípio
um método de prolongar a vida da jaqueta, transformou-se depois
num enfeite, que algumas já traziam ao sair da alfaiataria.
O COLETE, sempre presente no traje dos momentos
importantes, deixava alvejar a camisa pelo “V” que as
bandas delimitavam até o meio do peito. .
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AS CALÇAS, cortadas
a direito, sem a dobra que Eduardo VIII vulgarizou, roçavam
o tornozelo e subiam bem acima da cintura. O tecido das calças
era igual ao das duas outras peças, mas podia diferir daquele,
sendo em qualquer dos casos de tonalidade harmoniosa com o tom da
jaqueta e colete. Reforçando a contenção abdominal
do cós alto das calças, usava-se a cinta de pontas franjadas,
vermelha no campino, mas negra nos outros cavaleiros. Na amazona,
a cinta variava de cor de acordo com o gosto e o tom dominante do
traje. Por vezes e como reminiscência do século anterior,
em vez das calças, vestiam-se calções fendidos
junto ao joelho, onde se fechavam por botões em casas. Com
os calções, usavam-se botas de cano alto (de modelo
que julgamos napoleônico, embora com salto de prateleira), ou
polainas, fechadas, mais vulgarmente, por cordão em ilhoses.
O modelo de polainas apertadas por tiras de cabedal, trespassadas
por pregos de metal, era usado para caçar e não para
andar a cavalo. . |
O BOTIM, (bota de
cano curto), era de pele preta ou castanha com o traje de gala e
de “carneira” com o traje de gala tacão, raso
e bem destacado do contorno de calcanhar (salto de prateleira),
servia de apoio á espora de mola ou de lira, ou de prata
com fivela quadrangular, apertando na face externa do dorso do pé.
A CAMISA branca tinha um colarinho de bicos curtos,
com uma ou duas casas, onde se fixava a abotoadura de prata ou ouro,
singela ou dupla. A carcela era simples e o peito, enfeitado de
nervuras ou pregas finas, destacava-se do tom escuro do colete.
NAS MÃOS, tanto o cavaleiro como a amazona
usava luvas como requinte útil do traje de gala.
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Embora desde séculos anteriores
as senhoras montassem de lado, em silhões ou sela ditas de
amazona pelo menos no século XVIII, também podia escarranchar,
como se percebe da descrição de uma calçada
real no reinado de D. José, realizada no domingo seguinte
a 21 de janeiro de 1766, por Manoel Carlos de Andrade: “O
Coronel Bartholomeu de Aranda, Mestre da Picaria Real, tomando na
mão de um moço da estribeira um soberbo Cavalo russo,
chamado Gentil, conduziu-o ao degrau para a Rainha montar, á
qual o Marquez Estribeiro Mór merco o pé no estribo,
e o Sereníssimo Infante D. Pedro ajudou a pôr-se a
cavalo, como também Sua Majestade lhe segurou o estribo direito,
e lhe concertou as vestes raes: após isso o dito Mestre da
Picaria chegou ao degrau chamado filigrana para ElRei montar; segurando-lhe
nas caimbas do freio, o Sargento Mor Carlos Antonio, primeiro Ajudante
da Picara, no estribo direito, e o Excelentíssimo Márquez
de Marialva, Estribeiro Mor, lhe meteu o pé no estribo esquerdo,
e Ajudou a montar.
Outro exemplo da mesma época pode observar-se no Museu do
Prado, no quadro de Gova que retrata a Rainha Maria Luisa, mulher
de Carlos IV de Espanha, escarranchada num soberbo cavalo castanho.
O puritanismo vitoriano impediu, por dezenas de anos, que a amazona
montasse daquele modo. Só pela terceira década deste
século a mulher portuguesa voltou a montar enforquilhada.
O seu traje tornou-se igual ao do homem, mas tinha por vezes algumas
variantes. Em vez de calças, a senhora vestia calções
até o tornozelo, cobertos por saia larga fendida à
frente e atrás, que lhe permitia montar escarranchada à
vontade.
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Antes de ser considerado próprio
que as senhoras montassem “a homem”, usavam uma grande
saia de roda, com corte especial para se moldar sobre o joelho direito
e fixada á coxa por um atilho interior, não fosse o
vento levantar a saia e deixar à vista os calções
compridos até ao tornozelo, que persistiram no modelo de saia
que referimos atrás. Montada de lado, em sela própria,
a amazona mantinha o busto direito e rodado em relação
à cintura, de modo a ficar com os ombros bem perpendiculares
à coluna vertebral do cavalo. Comeste tipo de montar a amazona
não usava colete, mas casaquinha, jaqueta de quartos e quartilhos,
ou jaqueta justa de manga de balão, enfeitada por fita de “ciré”.
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Calçava botinas abotoadas no
dorso do pé (provável modelo francês do principio
do século). Mais tarde, como dissemos no inicio, o traje
perdeu as suas características populares. Montar deixou de
ser uma necessidade cotidiana. A equitação, transformada
em desporto ou em afirmação de bem-estar econômico
passou a exigir, por regulamento desportivo, no primeiro caso, ou
por “ser bem”, no segundo, o traje inglês. Nas
nossas feiras e festas que tinham o cavalo como Rei, o traje inglês
generalizou-se, em paralelo com um modo de vestir prático
e incaracterístico. O gosto de vestir “à Portuguesa”
persistiu, contudo nos meios rurais, mais lentos na adoção
da moda, em antigas famílias sempre ligadas à terra,
ou em homens simples que se mantinham fiéis à tradição.
As transformações sociais e econômicas, dos
tempos recentes quase fizeram esquecer o nosso traje tradicional
de equitação, Recuperado nos últimos anos,
o traje que aqui deixamos descrito em síntese, conta com
o entusiasmo de todos nós para não correr o risco
de perder-se, persistindo como parte importante do nosso patrimônio
cultural. |
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